https://www.academia.edu/170731366/Pol%C3%ADtica_e_identidades_no_mundo_antigo_%C3%ADntegra?email_work_card=title
A História Antiga, nas últimas décadas, tem estado cada vez mais atenta às transformações epistemológicas nas Ciências Humanas. No despertar da historiografia no século XIX, o estudo da Antigüidade desempenhou papel de destaque, a começar pelas próprias origens antigas do gênero literário. Nestas primeiras décadas, o político, como locus, mostrou-se fecundo, centrado, primeiro, nos grandes personagens, para depois se espraiar por toda uma gama de relações de poder. O século XX testemunharia um multiplicar-se da influência seminal dos estudos de História Antiga, numa pletora de campos, tanto historiográficos como de outras ciências. Democracia antiga e moderna, razão e pensamento, escravidão, alguns dos muitos temas explorados por estudiosos da Antigüidade, lidos, contudo, por historiadores em geral, e por todos que se preocuparam com o humano. Não cabe dúvida, portanto, que a História Antiga nunca saiu da ribalta acadêmica (e, menos ainda, da cena pública). Nunca se escreveu, falou, filmou, representou tanto sobre a Antigüidade. O primeiro objetivo desta coletânea, assim, relaciona-se a essa posição privilegiada do estudo da Antigüidade. Busca, além disso, mostrar como as discussões epistemológicas mais recentes aparecem na literatura brasileira. Desde meados do século XX, surgiram movimentos sociais que contestaram o caráter homogêneo e monolítico das sociedades. Para dar conta de tais conflitos e divisões sociais evidentes, diversas vertentes vieram a questionar o que se convencionou chamar de modelos normativos de interpretação da vida social. A teoria social propôs que as identidades eram algo relevantetema não tão presente anteriormente -e que elas eram fluidas, mutantes e EU FARAÓ. E VOCÊ? MARGARET M. BAKOS 1 Osíris é uma das mais importantes divindades do Antigo Egito, sendo associado à morte, à ressurreição e à fertilidade. Representado por uma múmia de cujas bandagens saem as mãos, segurando o cajado e o chicote, símbolos do poder faraônico, ele usa uma coroa branca, alta, flanqueada por duas plumas; seu corpo, às vezes, aparece em cor branca, outras, em preta, significando o aluvião do Nilo, outras ainda em verde, em alusão ao seu poder de ressurgimento 2 . Observando esse mito, caberia perguntar: como se construiu esse sincretismo identitário entre a divindade e o governante do Antigo Egito? São os homens que explicam os deuses, e não o contrário, ensina Jean-Pierre Vernant, a respeito dos gregos 3 . E a história dos faraós, cujo nome, em hieroglifos, significa casa grande, confirma a postura do helenista. Na relação entre esses governantes e os deuses, a figura do faraó egípcio, sua titulação e os símbolos de seu poder foram-se constituindo lentamente através da Eu faraó. E você? Além da tradição, o contexto histórico do rei justificava o rigor de Tutmés no registro de sua ascensão ao trono, após a morte de Hatsepsut (1498-1483). Ele queria se legitimar no poder, depois de a madrasta ter reinado em seu lugar por cerca de vinte anos. Por isso, buscava, de forma mágicaassim como o mundo foi feito pelos deuses, que individualizaram e designaram seres e coisas pela palavra divina -, instaurar, pelas inscrições, uma ordem que substituísse o caos inicial causado pela morte da faraona: um Egito concreto, unificado e ordenado pela sua pessoa divinizada. O ato de escrever, cuja origem os antigos egípcios desconheciam, significava, então, bem mais do que registrar um nome, coisa ou pessoa: significava criá-los. Eles achavam que a escrita era um ensinamento do deus Thot, representado por um pássaro, íbis, e/ou um macaco, que era conhecido como um ser do silêncio, adorador da verdade e inimigo da malvadeza 14 . Assim, surgiu, nos contextos dos mitos de criação do rei divino, o descendente em linha direta do demiurgo criador e, portanto, o proprietário do cosmo, intermediário entre a humanidade e os deuses, e responsável pela boa ordem do mundo . Vale então examinar como os escribas criaram, pela mitologia, a identidade faraônica. É preciso compreender, no entanto, que os mitos foram criados aos poucos pelos escribas e que não existe, em razão disso, uma versão unificada nem um relato completo dessas estórias, das quais restaram apenas episódios fragmentados, que variam segundo os lugares e períodos históricos dos documentos encontrados. Por outro lado, o entendimento da criação da identidade faraônica, apesar de ser um exercício próprio da egiptologia, de um modo especial leva à egiptomania, ou seja, às leituras diferenciadas dos mitos egípcios, feitas em outras épocas históricas 16 . Os 14 No texto das pirâmides, em Saqara, inscrições funerárias (feitas entre 2350 e 2175 a.C., mas que podem ter sido compostas antes) dizem que o faraó é a própria lei. Samuel Mercer fez a primeira transliteração desses textos, dos hieroglifos, em 1952, seguida pela de R. O. Faulkner, em 1969, atualmente a mais adotada. 15 C. Cardoso, op. cit, 1999. p. 99. 16 Há três maneiras de se manifestar interesse pelo Egito antigo: através da egiptologia, ciência criada no século 19 a partir da decifração dos hieroglifos por Champollion e que estuda tudo relacionado ao Antigo Egito; da egiptofilia, que consiste no gosto pelos objetos e textos egípcios ou que versem sobre eles; e da egiptomania, fenômeno que consiste na transculturação, isto é, na apropriação de elementos de uma cultura por outra, fato que implica, sempre, mudança, transformação de conteúdo ou de expressão.
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